Ó lua
andeja andarilha
que sabes todos reveses
e também as claras messes
palmilhando tua quilha
mar de leite que me aquece
como um abraço em forquilha
Onde narcisos em leque
sobrepassam-se feridos?
Ó lua andeja andarilha
que cantas todos os cantos
inclusive os mais românticos
sob o teu pálio de mica
Qual o rumor de remansos
reflui por onde te atiras?
Que poeira de retângulos
refulge nos descaminhos?
Ó lua andeja andarilha
cíclica luz de mistérios
em vário chão de dispersos
de ser múltipla e tão ilha
Quem amarga no reverso
as margens dessa partilha?
Quem sob a voz do teu verbo
encarna as vestes de espinhos?
Ó lua andeja andarilha
fuso em rotas de argonautas
vincado em suas fauces
rastro árido de rastilho
Que dor floresce em teu caule
a detonar seu gatilho?
Que tom de canção na pauta
recrudesce em desatino?
Nas dobras dessa cambraia
canto a lua de nós todos:
Ó lua andeja andarilha
por caminhar tua luz
os loucos e feiticeiros
já se quedaram tão pálidos
Na noite dos escolhidos
uma esquina se entortou
(mariposa enviesada)
um poste vira navio
(bengala de mareados)
Um soluço se despenca
nos pés de chumbo de um bêbado
Sete apitos anunciam
a nuvem que te redespe
dessa cortina de tule:
um operário requenta
os calos na bóia-fria
enquanto a mão rapidíssima
de um voyeur solitário
sola um solo só de gozo
Ó lua andeja andarilha
ó lua de todos nós
por se abrigar nos teus ciclos
o poeta se matou
um outro bebeu cicuta
e a virgem do Varre-Vento
( de tanto esperar marido)
já não jorra catamênio
E eu teu servidor humílimo
por estar em paz contigo
por ser amigo dos lobos
perdi a mulher amada